A depressão é um transtorno de humor caracterizado por sintomas como tristeza prolongada, desânimo, cansaço, pouco interesse por atividades que antes eram prazerosas e alteração do sono, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A dificuldade de interpretar os sintomas faz com que uma pessoa demore a procurar ajuda. Os sinais podem ser confundidos com sentimentos naturais como tristeza, indiferença e desânimo.

A doença pode se manifestar facilmente no ambiente de trabalho, sendo muito mais comum do que as pessoas imaginam.  Uma pesquisa do Ministério da Previdência Social aponta que transtornos mentais, como a depressão, foram responsáveis por 288,8 mil benefícios por incapacidade temporária no País em 2023, alta de 38% em relação ao ano anterior.

Um levantamento da empresa de pesquisa Gallup revelou que os trabalhadores brasileiros estão em quarto lugar na América Latina em sentimentos de raiva (com 18% do total de funcionários que vivenciam essa condição), de tristeza (com 25%), e, em sétimo lugar, quando se trata de estresse (46%).

Para o médico psiquiatra e professor titular de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Wagner Gattaz, ainda há muito preconceito relacionado à depressão, especialmente no ambiente de trabalho. Em entrevista à revista Exame, ele salienta que é necessário “derrubar esse estigma para tornarmos o diagnóstico e o tratamento acessíveis a todos. Isso resultará em menos sofrimento ao trabalhador e aumento da produtividade laboral.”

Entre os impactos da depressão no trabalho estão:

  • Baixo rendimento;
  • Faltas, atrasos e desistências durante o expediente;
  • Afastamento devido a complicações e sintomas severos;
  • Relacionamento conturbado entre colegas de trabalho;
  • Conduta prejudicial, tanto para o trabalhador quanto para a empresa ou órgão público.

A pejotização também causa depressão. Mas outro forte gatilho capaz de desencadear um processo de depressão, que poucas pessoas estão se atentando, é trabalhar estando na pejotização, que é a prática de contratar trabalhadores como pessoas jurídicas (PJs).

De acordo com a Receita Federal, até junho deste ano, o Brasil registrou 15,8 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), o que representa uma alta de 86% em comparação a junho de 2019.

Para especialistas, esse aumento da pejotização acaba ampliando vulnerabilidades dos profissionais, interrompendo a continuidade da proteção ao trabalhador. A professora de Direito do Trabalho da Fundação Getulio Vargas (FGV), Olivia Pasqualeto, afirmou que muitas empresas contratam funcionários como PJ para fugir de obrigações trabalhistas.

A professora de economia da USP Solange Gonçalves, disse que o profissional perde garantias e benefícios quando é contratado como PJ para atuar como empregado.

Em vez de ter um contrato de trabalho tradicional, na pejotização o trabalhador abre uma empresa e emite notas fiscais para a empresa contratante. Por isso, profissionais pejotizados perdem diversos direitos trabalhistas, como férias, 13º salário, FGTS, pagamento de horas extras e seguro-desemprego.

A pressão para cumprir metas e prazos pode ser maior para os trabalhadores nessa condição, que muitas vezes precisam trabalhar mais horas para garantir sua renda.

A pejotização também causa injustiça fiscal. O presidente da Unafisco Nacional, Auditor Fiscal Mauro Silva, salientou a importância de medidas para combater a pejotização, contribuindo para reduzir a defasagem da tabela do Imposto de Renda, que acaba pesando no bolso da classe média.

“As maiores remunerações na iniciativa privada não estão mais na CLT. A maioria dos funcionários virou empresa com o fenômeno da pejotização, portanto, não está na tabela do Imposto sobre a Renda.”

Saúde mental. O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) Antônio Geraldo da Silva destaca que o trabalho não adoece ninguém com depressão. Segundo ele, o problema é causado pela relação das pessoas com a sua própria saúde mental.

“Por isso precisamos cuidar da saúde mental, com foco na prevenção, cuidar da saúde como um todo, com hábitos de vida saudáveis”, explica o especialista.

Causas. A depressão pode ser causada por diversos fatores, como:

  • Aspectos biológicos;
  • Doenças graves e/ou debilitantes;
  • Alterações hormonais;
  • Uso de medicamentos;
  • Acontecimentos estressantes, como dificuldades financeiras, fim de relacionamento, luto, entre outros;
  • Questões relacionadas ao trabalho.

Prejuízos para órgãos públicos e empresas. A OMS calculou em 2020 que as doenças mentais acarretaram em um custo de US$ 3,5 trilhões no mundo. A instituição estima que esse gasto suba para US$ 6 trilhões até 2030.

Durante o evento Saúde Emocional Ressignificada, realizada em abril em São Paulo/SP, o coordenador da Assistência Clínica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Táki Cordás, destacou que das dez maiores causas de incapacidade no mundo do trabalho, cinco se referem à saúde mental. “Estamos falando de algo muito sério, agravado no pós-pandemia e já sentido pela maior parte das companhias.”

Diante desse cenário, o professor da USP Wagner Gattaz destacou que as empresas estão investindo mais nos cuidados com a saúde mental de seus empregados. Ele afirmou que tratar corretamente uma doença mental é mais barato “do que mandar alguém para a rua.”

Em uma pesquisa feita pela consultoria Gattaz Health & Results, empresa do professor, que acompanhou 9,7 mil trabalhadores no Brasil em 2023, a depressão foi responsável por 15,3 mil dias de serviços perdidos no período de 12 meses.

Combater a depressão no trabalho. Para lidar com funcionários com depressão e proporcionar um ambiente de trabalho mais saudável, especialistas recomendam que empresas e órgãos públicos façam uma avaliação do clima organizacional e do ambiente de trabalho. Essa análise é importante para identificar fatores que possam proporcionar situações de estresse, estimulando o desencadeamento de depressão no local.

Outra recomendação é promover conversas entre gestores e trabalhadores de maneira individualizada para verificar se há problemas pontuais internos, como falta de comunicação, situações de assédio, entre outros.

Os administradores também precisam estimular os empregados, incentivando o desenvolvimento dos funcionários, além de oferecer cursos, palestras e treinamentos.

Tratamento. O tratamento pode incluir psicoterapia e psiquiatria, que receitará medicamentos, se necessário. Além disso, quem se recuperou da doença, sabe o importante papel que os hábitos saudáveis têm para vencer a depressão. Alimentação balanceada, exercícios regulares, sono adequado e fortalecimento de laços sociais fazem toda a diferença.

No entanto, em entrevista à Agência Brasil, o coordenador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, Táki Cordás, alerta que muitas pacientes com depressão não buscam o tratamento.

“Estima-se que 70% das pessoas que precisam de tratamento não estão recebendo”, disse ele. “Preciso lembrar que o antidepressivo não vicia, não muda a personalidade, não vai te deixar ligado. Assim como o indivíduo que tem hipertensão, diabetes, o depressivo precisa do medicamento.”

Ao ler esta notícia, um grande passo foi dado para a conscientização da doença, revelando que chegou o momento de procurar ajuda profissional. Ou, ainda, as informações aqui compartilhadas podem servir para você conscientizar um colega. Ele poderá levantar da cama e abrir a janela a fim de voltar a ter esperança.